terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Moacir Arte Bruta, 2006

O documentário se preocupa em, unicamente, registrar o ser humano Moacir que, assim como vários outros, possui uma habilidade de expressão artística incrível. Essa afirmação, evidentemente, não tira os méritos particulares de Moacir que, mesmo com suas dificuldades de comunicação e deficiência óssea, assim como a vida extremante simples que leva, consegue exprimir ideias enigmáticas em formas de desenhos, seja no papel, na parede da casa que vive ou em metais, afim de exibi-los para a comunidade em sua bicicleta. Ora, outrora, o mesmo criava sua arte enrolado em lençol, se escondendo do mundo para isolar seus pensamentos em prol ao registro da sua complexa visão.

Arte bruta se refere a arte que parte de alguém sem direcionamento, sem estudos, por assim dizer, a pessoa não resgata e/ou se inspira em outras técnicas para fazer a sua, parte do interior pessoal, quase um auto-didata. Bem, isso em termos técnicos, realmente, pois se analisarmos, o mundo nos oferece milhares de referências há todo instante, a forma que você utilizará para moldar a sua arte só diz respeito as suas necessidades, alguns fotografam, outros se declaram, outros discutem e, claro, tem aqueles que pintam.

A arte de Moacir é uma mescla entre o misticismo e a sexualidade, há certamente alguns mistérios que envolvem a sua composição, aliás, o próprio afirma que tem visões de demônios e/ou aparições estranhas. Bem, a sua capacidade artística não é obra de um problema psicológico, porém, se existe algo eles coexistem. Sua simplicidade dos traços lembram muito uma visão infantil, no mesmo tempo, o conteúdo sexual - em uma das suas obras temos um homem, aparentemente deformado, chupando o próprio pênis - assim como os demônios que ele registra, são elementos maduros e, sendo assim, levantam um grande mistério, ainda mais pois o seu redor é muito simples, o povoado não consegue muito bem aceitar bichos chifrudos e mulheres peladas, o que resulta em alguns atritos, inclusive. Porém, com a eventual fama do humilde artista - até internacional - os vizinhos parece que vão, assim como o Moacir, direcionando as suas cabeças para o poder que existe ali, mesmo que não o entendam completamente. Enfim, vamos combinar que é impossível entender, visto que o próprio Moacir não consegue explicar algumas de suas obras, mas certamente os faz com maestria.

Em dado momento temos a participação do artista plástico Siron Franco que, com a costumeira arrogância de um analisador de artes, se coloca como oposto de Moacir, ainda mais, surge como uma metáfora da distância entre um primitivo e um moderno, onde por mais que se deem bem, ambos fazem uma obra, percebemos que, ao final, Moacir necessita "engolir" o seu trabalho, de forma a aproveitar o espaço quase que por completo, restando aos rabiscos de Siron, serem uma composição da visão de Moacir. Perfeito!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Três Segundos

Era um dia, como outro qualquer
Qual não é? Afinal.
Andando sem rumo
Calçadas se transformam em consolo
O vazio não se importa mais,
Permanece realista diante dos fatos, 
Diferentemente de mim

Enquanto buscava só um sentido
Saltavam oportunidades para mim
Encaravam minha face,
Repetindo dizeres maldosos
Confrontando minhas decepções
Enaltecendo a minha coragem para um fim

A meta, enquanto isso, permanecia irreal
Aquele coelho que te mostrei
Fora tirado da minha cartola
Enquanto todos riam de mim
Desespero tomou conta da minha alma
Um buscar incansável do estar
Envolvido e ciente
Crente

Missões fracassadas de um carente
Enxergando um mundo sem cores,
Pelo mesmo motivo que chorou naquele dia
A solidão se tornara sua mãe

Quando alguém o sentia passar
Tinha medo, 
Pois era essa a intenção
Ocultar a verdade com imagens borradas
Sem perceber se afundava cada vez mais

Nunca acreditou no amor
No fundo sabia que nunca seria o suficiente
Tinha medo de se tornar um monstro
Por isso guardava uma arma na gaveta
Se a bomba estourasse,
Ele se mataria,
Evitando assim a dor do mundo,
Em perder o seu menino feio

Foi ali, naquele dia,
Naquela tarde harmoniosa
Que o seu céu desabaria ainda mais
Desajeitado por caminhar só
Sem opções, procurando uma forma de fingir,
Estar bem consigo mesmo,
Quando nenhum sentir o comovia
Os fones de ouvido protegendo-o,
O preto o escondendo,
O cabelo minuciosamente alinhado,
Sendo confiante ao extremo,
Quase um ser humano intocável,
Refletindo um ser inexistente,
Ele então encontra o seu amor

Troca de olhares, 
Sem saber ao certo sua postura
A confiança se fora, 
Tão profunda quanto seu rosto rosado,
Delicada como seu olhar doce,
Só poderia estar morto
Tamanha beleza só podia ser uma brincadeira do universo
O arrogante ateu resgatou o seu inverso
Ensimesmado com suas dores diminutas
Ele mesmo não parecia o bastante
O tempo que teimava ser detestável,
Parou e deu mais tempo para a contemplação de um milagre
Seus pensamentos primitivos,
Deram lugar ao cavalheirismo

Um duelo infinito entre o sentimento e a atitude,
Fez dele o ser humano mais triste do mundo,
Se achava incapaz,
Não se sentia merecedor,
Suas mãos suavam de agonia,
As reflexões pessimistas foram para bem longe
Olhou atentamente para os lados, 
Ninguém percebia nada
Tornou-se a olhar aquele anjo
Ela tinha partido

Seu coração começou a tremer,
Sua face a cada segundo se tornava mais deformada,
Na sua boca só havia gritos de socorro
Aos poucos foi se tornando ninguém,
Virando pó

Cada pedaço do seu odioso ser,
Deixava o mundo, sem pressa
Degustando a angústia de uma vida perdida
Por algum motivo sentia a dor de perder um tempo infinito
Cujo momentos transcenderam o agora
Podia enxergar algo imensurável
Pela primeira vez se sentiu despido

Estava partindo, para um lugar nenhum
Chegou a vez do seu olhar,
Tudo estava se desfazendo,
Lembrou dos finais de semana na praia,
Sentando vendo o por do sol
Imaginando o dia que seria feliz com alguém
Esse alguém existiu, ele sente
Mas ele só foi capaz de sentir por três segundo

Por último o seu coração
Pulsando no chão
Pôde ainda pensar na moça
Por mais que tentasse,
Não conseguia se lembrar dos seus detalhes
Os ventos traziam as sensações
Movido por uma certeza intocável,
Tudo o que haviam vivido,
Valeu a pena


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Manhattan, 1979


Com o passar do tempo, percebo que minha escrita vem mudando, assim como surgem algumas necessidades minhas, explorar áreas do cinema que, até então, eu tinha muito receio de abordar e, um deles, vou tentar hoje. Eu já escrevi um singela homenagem ao meu ídolo e mestre Woody Allen ( clique aqui ) porém, nunca havia escrito sobre algum de seus filmes. Para ser sincero, não me acho capaz de analisar nada que venha dele, pois eu amo tudo, principalmente os detalhes, então imediatamente após escrever esse texto eu certamente vou ficar irritado por esquecer de alguma coisa, portanto vou escrever e postar rápido.

Conheci Woody Allen bem novo e, impressionantemente, passou a existir mais um jovem de 14/15 anos que tem como inspiração um senhor de 60/70. Acho que diminuo as coisas relacionando-o à inspiração, pois antes disso, eu tive o pleno sentimento de identificação, até então eu não tinha vivido o suficiente, amorosamente falando, para isso acontecer, só sei que aconteceu, muito por conta do diálogo. O cinema começa mudo, depois vem a fala, mas com o Woody Allen o diálogo é elevado ao último degrau, eu me identifiquei logo com o pessimismo, a simplicidade ou até mesmo as referências, não me considero uma pessoa cult, formal ou tão entendida como Woody, por exemplo, mas eu aprecio uma conversa repleta de referências, seja ela qual for, aquela conversa que vai embora, passa rápido, entre sorrisos e desabafos e nunca parece enjoar. A maioria dos meus relacionamentos - conturbados - se estruturam em base a amizade. Inclusive eu brinco com algumas amigas que, se por acaso eu estragar tudo, é porque eu me apaixonei. Isso sempre acontece, sempre acabo conhecendo muito bem a pessoa antes do sentimento que passarei a ter por ela, mas até lá as classificações vão caminhando e, quando vejo, estou encantado. Bem, preciso de muito diálogo. Sinto que se alguém não entender o meu amor/vício por cinema, por exemplo, estaremos automaticamente fadados ao fracasso. Só precisa entender, pois o gosto a gente vai colocando com o tempo.

Woody Allen ultrapassa a linha, ao meu ver, de bom diretor, ator, ou gênio do cinema. Ele é um homem, um artista completo. Não possui fãs, ele possui seguidores, esses seguidores não só assistem como são ele. Precisam das ideias dele para se certificar que não estão loucos. Ou seja, se um seguidor do Woody se relaciona com uma seguidora, deve acontecer algum tipo de mágica. Para o  bem ou mal mas, sem dúvida, deve render muita compreensão. E é exatamente essa a dificuldade de escrever sobre Woody Allen, até agora eu nem comecei as primeiras linhas sobre o filme que comentarei. 

Ele começou sua carreira como comediante, escrevia centenas de piadas para a rádio e, após conhecer Diane Keaton, acontece uma mágica: ele passa a escrever com os olhos de uma mulher. É perceptível a mudança, parece que os dois se divertem em cena, como se todo o conteúdo do filme fosse uma grande conversa que eles tiveram no dia anterior. Estou falando isso porque, igualmente, Allen não é ator, ele é o carinha dos seus filmes e o carinha do filme é o senhor que dá entrevistas. As piadas surgem do nada, os trejeitos, tudo. Diane Keaton é o símbolo dessa fase onde Allen assume o que realmente é, primeiramente um neurótico e, por isso, engraçado. Não ao contrário, como fazia no começo da carreira.


"Manhattan", de 1979 - se você chegou até aqui imagino que sabe ao menos a sinopse - é um filme que me machuca muito. Uma dor que honestamente não sei o motivo. Tento traçar algumas observações do porquê mexe tanto comigo, me vêm a Tracy na cabeça, mas certamente não é só por isso. Poxa, temos um personagem de quase 50 anos namorando uma de 17, mas muito mais do que idade, estamos falando de diferenças, e diferenças existe em todos os casos. Isaac Davis não leva Tracy a sério, está com ela pois é da vida querer estar com alguém, se torna ainda mais confortante quando, pelo motivo de ter 17 anos, você acredite que será fácil se despedir. Pois a pequena menina precisa conhecer o mundo e, então, caberá ao maduro da relação(?) usar isso como desculpa. O quanto é preciso usar desculpas não é? Apaixonamos errado o tempo todo, trocamos muito, talvez ninguém seja feliz amando apenas uma vez, como diria o grande Raul Seixas. 

Não vejo "Manhattan" como continuação do "Annie Hall, como alguns dizem, se fosse assim, haveria uma série de 80 filmes, bem, talvez seja todos sequências mesmo. As reviravoltas do amor, os erros, se fazem tão presentes que acabam, por si só, construindo um público, aqueles que se identificam com os diversos questionamentos que o fim da relação - principalmente - traz. Estamos todos amarrados em redes onde o egocentrismo se faz muito presente. Precisamos do outro para viver, o outro precisa do outro, pois já viveu com outro e sabe que esse atual não é como o que poderia ser. Mas o que era bom se foi, então você tem que decidir se continua com um confortável - mas não o melhor que experimentou - ou procura um outro. Esse outro pode não ser melhor que o que está e assim consecutivamente.

Detalhes. Primeiras cenas temos o Isaac tentando escrever sobre Nova Iorque. Claro, enquanto isso temos lindas imagens da cidade em preto e branco, quase tão lindas que se sobressaem as inúmeras tentativas do personagem colocar em palavras a importância que aquela cidade tem na sua vida. Ao fundo temos uma trilha sonora leve, nos remetendo diretamente ao Charles Chaplin.

Capítulo um: Ele adorava Nova York. Ele a idolatrava em excesso. Bem, vamos dizer que ele a romantizava em excesso. Para ele, não importa a estação, a cidade ainda existia em preto e branco e pulsava ao som de Geoge Gershwin. Não, deixe-me começar novamente.
Capítulo um: Ele era romântico demais, em relação a Manhattan como era com tudo mais. Ele adorava estar no meio da multidão e do tráfego, para ele, New york significava mulheres bonitas e homens inteligentes, que pareciam saber de tudo. Não, ficou melodramático demais para o meu gosto. Vou tentar aprofundar mais.
Capítulo um: Ele adorava New York, para ele a cidade era uma metáfora, da decadência da cultura contemporânea a mesma falta de integridade individual que conduzia as pessoas a procurar a saída mais fácil rapidamente transformava a cidade dos seus sonhos em... não, vai parecer sermão. Vou querer vender esse livro.
Capítulo um: Ele adorava New York embora fosse para ele uma metáfora da decadência da cultura atual. Como era difícil viver em uma sociedade anulada pelas drogas, música alta, televisão, crime, lixo? Muito inflamado, não quero parecer isso.
Capitulo um: Ele era duro e romântico assim como a cidade que ele amava, por trás dos óculos pretos estava a potência sexual de um gato selvagem. Adorei essa. A cidade era dele e sempre seria. 

Vemos nesse pensamento inicial que mesmo idolatrando a cidade a qual pertence, ele só consegue finalizar a sua linha criativa quando mistura a mesma consigo próprio. Partindo de uma união entre ambos para explicar não só o seu amor pela cidade, quanto para já se caracterizar. É o velho personagem, refazendo seus gostos, se encontrando em uma mesma situação, só que ao inverso. Enfim, é o que sempre acontece, a vida. O personagem ser escritor, assim como a maioria dos personagens principais, só demonstram a metáfora de grandes deuses, arcando com a responsabilidade de suas próprias escolhas, como se trata da dura realidade amorosa, escolhas imperfeitas mas, se pensarmos bem, será que há mesmo uma escolha certa?

Passamos então para a apresentação de quatro personagens: Isaac Davis ( interpretado pelo Woody ), Tracy ( Mariel Hemingway, cujo papel lhe rendeu uma indicação a atriz coadjuvante ), Yale ( Michael Murphy ) e Anne ( Byrne Hoffman Emily ). Os dois primeiros um casal incomum, o segundo mais comum impossível. Aliás, até traição está acontecendo por parte do yale. Na apresentação desses personagens temos já um dos melhores diálogos, começando pela piada envolvendo o cigarro, do qual Isaak afirma que não sabe tragar porém fica realmente muito lindo segurando um na mão. Tracy fica meio irritada, pede licença, surge o comentário do amigo Yale dizendo que ela é linda, Isaak responde:

- Mas só tem 17. Eu tenho 42 e ela 17. Sou mais velho que o pai dela, dá para acreditar? É a primeira vez que esse fenômeno acontece na minha vida.

Esse filme é tem como tema principal o amor de um homem velho com uma menina. Pode existir outros diversos casos e questões, como a ex-mulher ou a amante do amigo Mary ( Diane ), mas o foco realmente é esse. Essa primeira cena explica muita coisa, pois o personagem ignora o fato dela ser linda, como o amigo afirma, se preocupando em deixar claro que não tem como haver nada sério ali. Algo como se a consciência estivesse gritando o tempo todo, mesmo que bêbado. A menina, por sua vez, é quase tão madura quando o próprio homem, criando, assim, um enorme problema, pois a mesma se vê em condições, mesmo que Isaak tente se colocar para ela apenas como um sábio, que a guiará no presente para, enfim, poder desfrutar do futuro. Ele a recusa no agora e ainda, sem querer, tem pretensões arrogantes, do tipo "aprenda comigo, mas não se preocupe, deixe-me um dia". Não há julgamento, nem por parte do espectador, nem os personagens do filme, apesar que a Mary tira um sarro dele quando descobre que a menina tem 17 anos dizendo "Nabokov deve estar rindo em algum lugar, não é? Enfim a menina se mostra apaixonada, Isaak a conforta passando a imagem de um atalho, mas será que essa tentativa de se esquivar da responsabilidade, essa tentativa de proteger a menina não acaba virando um machucar grande? Para mim, essa atitude a agride muito e, pensando bem, deve ser justamente esse ponto que mais me identifico, essa ânsia por se considerar atalho para o outro, te transforma em alguém pessimista para com o tempo, você necessita explicar que possivelmente não durará o quanto imagina, mas as pessoas precisam sentir que será eterno, caso o contrário, nem começariam.


O breve relacionamento de Isaak com Mary também resulta em ótimos momentos, a começar que ele vive dizendo que ela pensa demais, usa o cérebro com demasia, enquanto o próprio também o faz com perfeição. Ou seja, o sujo falando do mal lavado. Em uma das conversas ele afirma que ela deveria conhecer alguém burro para, quem sabe, aprender algo, é basicamente isso que acontece. Ela não precisa de alguém igual a ela, em termos intelectuais, ela está cansada de gênios, eles não a satisfazem mais, como um dia foi, ela própria diz que o seu primeiro marido era um avassalador na cama, e quando finalmente o vemos, é perceptível que ele foge dos padrões de beleza, ou seja, ela estava no auge de uma necessidade diferente, por isso se encontra em um relacionamento proibido com um homem casado, quer algo mais desprendido que isso? De todos os personagens ela é mais problemática, prova disso é que seu analista, o querido Donny, não soa muito bem. O fato é que esse relacionamento se fez através de encontros inesperados e, consecutivamente, forçados, mesmo que contraditório, então cabe a Isaak, em um passeio de barco, colocar a mão na água e, depois, reparar que a mesma está repleta de lodo, simbolizando a situação daquela relação e, ainda por cima, uma crítica a própria cidade. Coisa de gênio.


Diferentemente de outros filmes, a piada aqui surge em momentos oportunos como o "eu tenho dinheiro para viver por um ano... se eu viver como Gandhi." mas não o vejo como uma comédia, pelo contrário, uma profundidade sem tamanho que, unido a fotografia e ótimo roteiro, tudo se torna sim um pouco mais leve. Cenas como o passeio de Isaak e Tracy na carruagem em que, após um beijo, ele fala que ela é a resposta de Deus a jó, ou quando Isaak vai contar para ela que está se envolvendo com alguém mais velho, ela vira para ele e ele fala "não me encare com esses olhos grandes está parecendo crianças carente precisando dos pais" entraram para a história como uma das melhores, sendo a segunda uma ousadia sem tamanho, pois, realmente, se trata de uma criança que precisa sim dos pais. Mexendo em uma ferida grande, principalmente aos olhos dos mais conservadores.

No fim, quando depois da sua aventura, ora bolas, com uma mulher mais madura - algo que parece totalmente ao contrário, é mais comum as aventuras serem com jovens - ele percebe que a única que mexeu com ele de uma forma verdadeira é a menos provável. A criança. Sai correndo em direção dela, que por sua vez está de partida para Londres. Tudo o que ele havia dito, sobre experiências ou sobre ser visto como atalho, foi jogado no lixo. Ela era um atalho para ele se encontrar, mais irônico que isso impossível. Ele se desespera como uma crianças precisando dos pais, o mesmo brinca com isso pedindo para a menina parar de ser madura, fica aflito pois serão seis meses sem se verem e, nesse tempo, poderá conhecer alguém mais interessante... ela olha para ele e diz que "nem todos se corrompem" e, finalizando essa obra de arte, continua com "você tem que ter mais fé nas pessoas". Woody Allen, não Isaak agora, não mais, fica sem graça e dá um leve sorriso. É sorriso de aceitação, do tipo "é, você tem mais que razão e é por isso que estou fazendo esse filme", é de tamanha importância e impacto no meu coração, tanto quanto Charles Chaplin sorrindo no final de "Luzes da Cidade". Amores, sentimentos, nunca nos sentiremos totalmente seguros, improvável ter fé, mesmo que seja necessário ter, para continuar vivendo confortavelmente. Quantas oportunidades desperdiçadas, quantas pessoas se foram por arrogância, quantas outras virão e perceberão, que somos/sou só uma pessoa tentando me entender. Uma pessoa imperfeita, buscando me encaixar em outras imperfeições, ser aceito e receber carinho, pois, só assim, em meio a distância da idade, discrepância de desejos, seremos parte de um outro, seremos um. Estaremos a espera da nossa criança, assim como criança. Pois não há julgamento de valor quando se ama, não há cérebro que vença a batalha, pois essa habita o coração, esse lugar hostil, repleto de promessas e afeições.

"Fatos? Eu tenho um milhão de fatos na ponta dos dedos!"
"Pois é, e eles não significam nada não é? Porquê nada que vale a pena saber pode ser entendido com a mente."


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Tangerines, 2013

Eu sou fã de filmes de guerra, mas raramente gosto de algum. Pois vejo uma certa glamourização, mesmo que muitas vezes oculta, dessa figura heróica atribuída aos soldados. Eu sou cético perante várias coisa, dentre elas a religião e política. Acredito que o homem está destinado a se corromper, enquanto existente a sua incansável busca por poder/espaço. A guerra é quase uma entidade importantíssima ao longo da história, porém, é um apressar sujo. Eu não vejo graça e heroísmo em ser fantoche de interesses grandes e pessoais. Penso na guerra como um jogo de xadrez, porém, para refletir sobre a questão, eu retiro as outras peças como o rei, rainha ou bispo, e focalizo no peão. Ele se sacrifica, grita que faz isso pelo seu país, mas e dai? O seu país é construído por homens, homens arrogantes e corrompidos, cegos. Não acho justo desperdiçar sua vida e família com algo assim. Enfim, se eu fosse para guerra não mataria ninguém, pois não sou assassino e ninguém me obrigaria a ser, mas se eu morresse, acharia uma merda essa porcaria de nem conseguir resolver a minha vida e ter que me doar pro país, fala sério.

Enfim, há filmes que abordam a guerra como eu realmente a vejo, como: "Glória Feita de Sangue", "Vá e Veja" e "Johnny Vai a Guerra". Esses são alguns exemplos que me agradam, mas certamente existem outros, inclusive os quais a guerra está ainda mais invisível como o documentário "Guerra Invisível" ou o próprio "Ida", filme Polonês que disputa o Oscar 2015 e filme estrangeiro com "Tangerines", o filme que comentarei a seguir.

Bem, logo nas cenas iniciais temos a apresentação do senhor Ivo e seu amigo, senhores que continuam na mesma comunidade, se recusando a se despedir como seus familiares e amigos, um por conta das tangerinas e o outro não fica muito explícito o porquê, mesmo que diversas vezes é mostrado o enorme vínculo que ele possui com a neta, que também fugiu.
Dois soldados o abordam enquanto ele trabalhava, pedindo um pouco de comida, Ivo os acompanha até sua casa - a dupla mantém uma postura arrogante, intimidando o espectador, mas o protagonista se mostra bem tranquilo diante a possível tensão - eles conversam um pouco, avisam sobre os perigos que cerca o velhinho e vão embora, agradecidos com a comida. Dias depois há um tiroteio em frente a sua casa e dois soldados sobrevivem, Ivo os leva, então, para sua casa, dar-lhes o devido tratamento, não como soldados, mas como humanos, independente de suas convicções ou uniforme. Ao ficarem conscientes, descobrimos que ambos estavam em lados opostos do tiroteio, cada um protegendo seus próprios ideais, ou seja, um matou os amigos do outro. Em respeito ao senhor que os salvará, ambos prometem não fazer nada enquanto não se recuperarem e, assim, quando saírem, estarão preparados para matar um ao outro.

Essa ideia é fantástica, lados opostos da guerra estão separados por quartos, cada um com a sua inocência em acreditar que, matar um ao outro, é interesse deles próprios quando, no fundo, são apenas seres humanos em busca de conforto. Eles são obrigados a lidar com a diferença, uma cena que ilustra bem isso é quando Ahamed - um dos soldados que aparece logo no início do filme - olha o crucifixo do "inimigo" Margus e este, por sua vez, fica sem graça e esconde quando ouve "nós respeitamos o cristianismo". O filme se constrói em base a indiferença a crueldade, a morte, e ressalta a importância do carinho, do amor, na vida de pessoas, aparentemente, desconhecidas, mas que ainda assim possuem vínculos por serem frutos de uma mesma ganância. 

Margus, por exemplo, era ator, Ahamed tem família, enfim, de onde vem tanto ódio? Só pode ter sido imposto por reis e bispos. Na floresta eles são apenas peões uniformizados , de perto são homens de família com muitos sentimentos. O filme ainda deixa algum espaço para alguns diálogos pertinentes, principalmente envolvendo Ivo, interpretado brilhantemente por Lembit Ulfsak e Ahamed por Giorgi Nakashidze como:

- Eu vou matá-lo!
- Quem deu esse direito a você? 

Enfim, um excelente filme, eu diria que, de todos os filmes que vi e que foram indicados ao Oscar de 2015, "Tangerines" é o melhor. Não apenas na sua categoria, de tudo mesmo. Com o uso fantástico da música, ele nos entrega performances maravilhosas, roteiro elegante, desenvolvendo personagens complexos em uma hora e vinte minutos, coisa que os ditos "melhores filmes do ano" não conseguiram, na minha opinião. Aliás, há espaços para algumas críticas sobre o próprio cinema, como as poucas produções do cinema da Estônia e, principalmente, um diálogo entre Ivo e seu amigo:

- Pensei que ia explodir como no cinema.
- O cinema é uma fraude!

domingo, 18 de janeiro de 2015

Novamente

A noite é meu momento de pensar
Não que queira apressar os acontecimentos
Simplesmente não sei ao certo separar
Pequenas histórias ou histórias imortais
Talvez exalte demais detalhes

Hoje acordei e esqueci aquilo que me motivava
Causando uma certa reflexão
Não há novidade em se deparar com você mesmo
Repensar suas ambições
Será que a simplicidade convém?

Parece que vivo em um museu de desesperados
A responsabilidade ainda me assusta
Vou seguindo meus pequenos passos sem planos
Me falta um acreditar

Deve ser por isso que você foi embora
Se declarar demais também pode ser um pecado
No momento, meu coração parece magoado
Mas ele está mais que acostumado
Crio dúvidas,
Raramente sou a escolha

Viver como um subversivo pode não ser atraente
Não se misturado com a rotina
Crio expectativas,
Mas a distância realmente é minha melhor amiga

A minha alegria se faz em base a ilusão
Depois acordo e percebo que a vida não tem tanto humor
Sorte que ninguém fica me assistindo
As pessoas buscam entretenimento
Eu tô mais para Bergman

Será que um dia dará certo?
Estarei satisfeito em perder?
No fim nada disso importa
A escolha é realmente o caminho

Acho que assisti filmes demais,
Então levo as últimas consequências o "siga o seu coração"
Ando seguindo tanto ultimamente,
Que esqueço que eu ainda existo também

Há! Como eu gostaria que meus sentimentos fossem tratados com carinho
Estar aos cuidados do diálogo
Possuir não é uma opção
Mas não consigo mentir, 
Ainda parece que é preciso

Você desconhecida,
Me abraça?
Eu sei que não existo, mas faça- me o favor
Dessa vez não quero falar tanto
Eu necessito ouvir
Mas, te peço, respeite minha carência
Posso parecer confiante e adulto,
Mas preciso me encantar com o mundo
Assim como uma criança se encanta com um parquinho

Você desconhecida,
Não fique tão indecisa
Vem comigo
Vamos aproveitar o dia
Escutar música
Rir

Ei, desconhecida
Vamos fazer um pacto, pode ser?
Eu estou inclinado ao pessimismo
Acredito que serei abandonado
Eu não preciso ser medalha,
Muito menos fico triste por ser deixado por rótulo
Mas, lembre-se, antes de existir nós, existe dois
Existe seres humanos, que se machucam 

Não deve ser um erro ser sentimental
Será mesmo que preciso continuar escondendo isso?
Como faço para você olhar para mim?
O que há de errado em prestar atenção?

Por muito tempo te coloquei no topo
Me emocionava com sua beleza perdida
Apoiava pequenos gestos
Mas percebi da pior forma que nunca te tive
Estava cego
Deve ser algo comum
Na verdade, não construímos algo para durar muito tempo

Tenho consciência de que não sou o único
Pelo contrário, vamos multiplicando nossa solidão
Sentindo-nos limitados em conhecer
Sedados perante ao óbvio
Inerentes ao errado
Provocados pelas imagens,
Inocentes diante as promessas

A minha melancolia não é recorrente
Mas o mundo que me cerca clama por observações obscuras
Essa doença chamada comodismo
Incomoda aqueles que não estão inseridos

Continuarei caminhando
Registrando em versos significados soltos
Escrevendo poemas,
Dando continuidade a tão querida distância
Louvando o mesmo,
Sendo, inconscientemente, mais um conformado 


Travesseiro


Meu travesseiro é cor de rosa,
Macio, extremamente convidativo
Ele me traz sonhos com uma mulher tenebrosa
As vezes me faz pensar que estou enlouquecendo, mas isso é relativo

Algumas vezes surge várias fadas
Capazes de me amedrontar
Fico tímida, elas passam a me violentar
Como quem é prisioneiro,
De uma sede insaciável
Mas sei que algo me protege, um cavalheiro
Só não tenho certeza se ele é confiável
Diante ao meu medo,
Meu travesseiro me guia
O seu tempo é diferente
Ele tem o dom de se controlar
Suas palavras soam elegante
Quanto a mim, sou ignorante

A maturidade que a minha idade impede,
Me daria o que mais desejo
Meu sábio travesseiro, 
Transbordando confiança,
Sem medo de me acordar durante a noite
Me dizendo aquilo que preciso,
Conhecendo-me,
Nesse momento que me sinto só
Tenho espinhas

Olho no espelho
É sua sombra que vejo
Uma imagem embaçada
Ainda assim faço de você a minha respiração

Quando eu vejo você,
Por acaso sinto que somos proibidos,
Eu tremo de ódio
Essa sociedade corrompida está acostumada
Corações malvados,
Fazendo esquecer que o amor está no impossível

sábado, 17 de janeiro de 2015

Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, 1987


O cinema iraniano, e acredito que já escrevi isso aqui outras vezes, é um dos - ou o maior - cinema que me encanta. Há diversas obras que usam como base a sensibilidade e realismo, incluindo alguns filmes nacionais, porém, o cinema iraniano ainda mescla mais um elemento importantíssimo e que, pessoalmente, eu amo: a criança. Bem, é lógico que nem todos os filmes tem uma criança como protagonista, é o caso do grande "Close-up" dirigido pelo Abbas Kiarostami, cuja trama se desenvolve, ainda assim, em cima de uma ação que beira a infantilidade, uma mentira, cuja importância lá é mostrada com tamanha importância que, aqui, comparo com a arte. Ou seja, Abbas une o realismo, sensibilidade para nos provar que a mentira pode e, muitas vezes é, de fato, uma forma de se fazer arte.

Outro cinema que traz a criança como centro de um universo aliado com um hiper senso de realismo é a Suécia, porém ainda vejo em alguns filmes isso como um elemento da narrativa. Um truque. Assim como o silêncio. Existem muitos filmes silenciosos, porém alguns chegam a dar sono, causando um tédio, eu sou um apreciador das poucas palavras no cinema - assim como longos diálogos - e confesso que, quando o silêncio me causa u cansaço, eu já analiso que é um artifício. Algo que nunca me aconteceu com o cinema Iraniano, nunca me cansei pela naturalidade, pelo contrário, a mesma me emociona, pelo simples fato de estar acontecendo, sendo o ápice do coração no cinema.

"Onde Fica a Casa do Meu Amigo", de 1987, veio antes de "Close-Up", citado acima, e já demonstra a capacidade, quase assustadora, de Abbas para trabalhar em cima do olhar da criança, para com o mundo que o cerca e, por diversas vezes, vemos o mesmo sendo transformado. Ora, não a toa geralmente temos, a partir do tema principal, o surgimento de várias pessoas que dividem com os outros personagens e nós espectadores, um pouco do que acreditam. Ou sua história. Como se estivéssemos sentados em uma praça, ouvindo história de pessoas que não conhecemos, enquanto nosso filho se diverte criando um mundo próprio, onde os seus objetivos não são entendidos pelos pais. Somos - nós, espectadores - moscas analisadoras de um roteiro humano. Um exemplo disso seria o senhor que, ao final do filme, ajuda o garoto protagonista a finalmente encontrar a casa do seu amigo. 

Aliás, creio que eu me apressei, já nos 10 primeiros minutos de filme, o diretor faz questão de revelar a pressão que os meninos passam em sala de aula, para a realização de suas tarefas, além de terem um mestre altamente impaciente para com atrasos e demais eventos que soam mais como detalhes. Quase como um ritual, todos os dias a primeira coisa que ele faz - depois de dar bom dia para os alunos - é passar nas carteiras, uma por uma, afim de corrigir as tarefas, Ahmad se vê sensibilizado pelo seu amigo, pois ele não fez as atividades, então já temos um close no rosto dele, em uma emoção hiper sensível que me faz pensar "onde raios acharam esse garoto? Que atuação é essa", lembrando que isso é nos primeiros dez minutos, e lembrando também que, muitos dos atores dos filmes iranianos, não são atores. Enfim, esse carinho para com o amigo continua no intervalo, quando ele cai, machuca o joelho, e vemos nosso protagonista - herói - cuidando com a maior atenção do mundo o ferimento.

Se existe pressão até na sala de aula, nos sentimos, junto com o personagem, o sufocamento que sua casa e as responsabilidades causam, o menino é cercado de tarefas onde não cabe mais tempo para ele pensar em seus próprios problemas, enfim, essa é uma realidade daquele país. Mas existe uma falta de comunicação muito grande entre ele e a sua mãe, pois a mesma também é muito preocupada. Enfim, é de se imaginar quando há uma pausa para o afeto. Não existe uma resposta para isso, além do próprio desenrolar da história, o menino supera os seus medos para ir atrás do amigo, conhecendo pessoas que o ajudam, mesmo com suas limitações, como o adorável velhinho que ele encontra ao longo. Enfim, em meio a dúvidas, até mesmo a descobertas, nosso pequeno herói vai descobrindo o cuidado, causando então a comoção, simplesmente pelo registro visceral dessa passagem de auto-descoberta. Feita sem truques. 

- "Porque se for um preguiçoso não será útil para a sociedade... Na sociedade as crianças devem manter incorporado o sentido de disciplina. Devem obedecer os seus pais e respeitar todas as tradições."

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Casa Vazia, 2004


O silêncio está muito presente no cinema, principalmente na Europa, é bem comum encontrarmos um filme onde os protagonistas são cercados de uma alma silenciosa para, enfim, desenvolver através de gestos e alguns artifícios técnicos - como fotografia, por exemplo - o que se passa, realmente, com as personagens. No caso de "Casa Vazia", filme de 2004, dirigido pelo excelente Kim Ki Duk, o silêncio é muito mais do que um artifício, passa a ser uma entidade, um personagem complexo, talvez, o maior personagem do filme.

É recorrente atribuirmos ao silêncio um poder grande na relação, seja ela qual for. É inerente ao ser, achar que o outro consegue entender sem apenas um diálogo, uma frase. Palavras soam infantis, quando se comparado com atitudes. Conversas. Enfim, o silêncio é uma virtude, para aqueles que o entendem e, consecutivamente, usam para o bem próprio, basicamente se entender. O barulho impede a reflexão sobre nós e, sejamos francos, entender nós mesmos é a nossa única missão nesse mundo. 

O filme mostra um rapaz, jovem, que vive invadindo as casas de famílias enquanto os mesmos viajam, passam dias fora. Ele não rouba ou nada do tipo, simplesmente se hospeda lá e, em troca, oferece pequenos favores, consertando alguma coisa da casa que ele percebe que está quebrada - se tratando, evidentemente, de uma metáfora. Em uma dessas suas aventuras bizarras, ele se depara com uma mulher que, ao invés de acompanhar o marido na suposta viagem, fica em casa, ela também se encontra perdida como o pobre garoto, então analisa ele silenciosamente e, após alguns desentendimentos, parte com ele em rumo à outras casas.

Enfim, o personagem principal não tem uma fala sequer, bem, tentarei explicar o meu entendimento sobre o porquê isso acontece mais a frente. Acho relevante revelar que, misteriosamente, eu tive alguns processos de identificação muito estranhos no cinema e, imaginem só, muito parecidos, ao longo da minha vida cinéfila. "Following", filme de 1998 dirigido pelo Nolan, ainda me causa um desconforto, para quem não lembra, tem um escritor que segue pessoas desconhecidas na rua, pretendendo adquirir inspiração para escrever o seu livro. Enfim, é algo totalmente insano, mas mais insano ainda é se identificar com isso, algo parecido aconteceu comigo quando assistia esse belíssimo filme Sul Coreano, o fato de ter um cara, sem rumo, dormindo em casas de desconhecidos me chamou a atenção. Eu não precisava de mais nada para ter certeza que tinha que assistir. 

Para minha surpresa, o filme é mais que uma ideia sensacional. O silêncio, como disse acima, é uma metáfora, assim como a invasão das casas, o próprio personagem principal, os acontecimentos, enfim, nada me parece ter um sentido literal. É um verdadeiro quebra cabeça mesmo, onde a sensibilidade traduz com perfeição as estranhezas e nos aproxima da ideia que, de fato, assistimos um filme extremamente real.

O protagonista é um perdido, sem família e sem amor, pois o mesmo é uma sombra, um andarilho, ele não invade casas, ele invade lares, sentimentos. Em toda casa por onde passa, ele tira uma foto dele mesmo perto de algum quadro dos donos da casa, pessoas que, por sinal, apesar de aparentemente terem tudo, são vazios, até mais vazios que ele próprio. Como visto, a casa que tem uma maior profundidade é a qual uma personagem, uma bela mulher, acaba se interessando pelo modo de vida do rapaz, aliás, ela é casada e visivelmente não vai nada bem no casamento, me parecendo que aquela "aventura" que ela está prestes a fazer, a remete para uma vida passada, seja com o próprio marido ou não, enfim, o protagonista é sombra dela, assim como é sombra do marido. Ele é um camaleão, se adapta a realidades e declínios em prol a atitude de mudar.

A posse é extremamente frágil, assim como o rótulo. As casas que ele invade, apesar de muito belas e cheias de frescura - como uma TV com muitos canais e etc - não o iludem. Ele não está interessado no ter, ele só quer ter um teto para viver até o próximo dia. Talvez ele seja exatamente o que todos os seres humanos são: sobreviventes, porém sem a necessidade de usar máscaras. A mulher, pelo contrário, tem que viver com o fardo de possuir, seja uma casa ou um casamento, apesar da ânsia de se desprender dessas amarras, ela ainda é uma pessoa enjaulada. Mas pensa fora da caixa, isso a faz ser a única que consegue ver o jovem, depois que ele desenvolve técnicas para, literalmente, se esconder atrás da pessoa, imitando seus movimentos. 

Enfim, assim como "Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera" do mesmo diretor, "Casa Vazia" é uma obra difícil, porém sensível ao extremo, vale pela experiencia e reflexão, desde uma vida acorrentada pelo medo de fugir, passando pelo poder do silêncio, principalmente nos momentos certos. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Siga-me


Venha adorável delicadeza
Encosta seus lábios nos meus
Eu deixo você me influenciar,
Com seu jeito meigo

Dessa vez serei sincero
Minha personalidade consumirá a sua bondade
As rosas vermelhas serão espalhadas pelo seu corpo
Meu olhar malicioso te desconstruirá
Eu deixo, por um instante, você achar  que nunca deixará de ser santa

Sabe aquela bíblia?
Queimei
Não precisa fingir que escolheu errado
Um monstro não precisa se esconder
Eu sou a revolução,
E terei você como parceira do pecado

Entre prazer e insanidade
A donzela se transformará em demônio
Pelo mesmo motivo tentará dar ordens
Mas, pobrezinha, entenderá que sou o rei da maldade

Venha, conheço um lugar
Escondido, 
Onde podemos brincar de boneca
Eu serei a mulher virgem
E você o produto

Trocará as sapatilhas, 
por fones de ouvido
Mozart por Ac/Dc
Doce por pimenta
Fé por atitude
Livros por aventuras

Eu sou o mestre
Você o chaveiro

Entre brigas e sexo,
provaremos que pensar no amor é medíocre
Entre o preto e vermelho,
Conquistaremos o poder
Passagem só de ida para o inferno
Eu sentarei no trono,
Dando risada da sua cara

Pois eu sou
Você simplesmente me copia
O pecado não puxa o pé daqueles que estão inseridos,
Ele sacaneia os sem opinião,
Bonequinhos de porcelana

Seu lar vai tremer
Quando eu chagar
Melhor você mentir
E nunca começar
Essa paixão melhor esquecer
Você vai sofrer,
Ao menos que queira ser usada,
Não tencione viver comigo,
Historinhas de criancinhas,
Pois eu, meu bem, sou o lobo mal,
E se você não prestar atenção, 
Eu te devoro

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Qué Tan Lejos, 2006


Se tem uma coisa que me deixa feliz nessa vida é fazer uma viagem, principalmente aquela despretensiosa. Um lugar confortável, pessoas diferentes e vontade de conhecer/desbravar. Ou, talvez, um passeio no meio do mato, acampamento, enfim, eu ainda não fiz nem a metade das coisas que gostaria, se tratando de viagem, porém, me pego as vezes perplexo com as diversas possibilidades que estão ao nosso redor e, por vários motivos, ignoramos muitas vezes. Eu sempre fui uma pessoa muito simples, desapagada de bens materiais - claro, não totalmente - e com o passar do tempo, fui questionando se era preciso "ter" mais do que "ser", ou melhor, sentir. Cheguei a conclusões que me afastam um pouco dessa amarra de consumismo que vivemos, enquanto muitos amigos me contam, super entusiasmados, os seus planos de carro, moto etc, eu tenho exatamente a mesma reação quando conto sobre meus planos de viagem, por exemplo. As diversas coisas que pretendo ver, ares diferentes para respirar, pessoas para conhecer e me conhecerem.

Uma longa e inesperada viagem começa dentro de nós mesmos, reflexões sobre nossos objetivos, sobre o que colocaremos como prioridade na nossa vida. As vezes eu penso em comprar um celular melhor, por exemplo, mas depois cai a fixa e quero guardar dinheiro para viajar. Tudo acontece em um momento, por enquanto, vou viajando o quanto é possível para mim e, desde sempre, vou transformando o cinema no melhor guia turístico que existe, aquele que não só me mostra as belas paisagens ao redor do mundo, como me apresenta histórias particulares, me aproxima de um universo ainda não conquistado por mim, que está no campo das ideias. Para quem se interessar, eu participei do podcast Cinem(ação) falando sobre cinema e viagem ( Clique aqui ) onde indiquei diversos filmes que abordam o tema, diretamente ou indiretamente, o filme que comento hoje, inclusive, certamente entraria na lista de recomendação, se eu tivesse assistido antes, claro.

"A Que Distância", de 2006, é um filme do Equador, o primeiro da carreira da diretora Tania Hermida. O filme segue a linha dos famosos "road movies" ou "filme de estradas", até ai nada novo, aliás, nem o vejo com muitos diferenciais, mas certamente possui alguns detalhes cativante, como o trio de protagonistas-amigos-desconhecidos que, quando juntos, são bem divertidos. Dois personagens tem objetivos prontos, como invadir o casamento de uma paixão e levar as cinzas da vovó, o que, por si só, resulta em diálogos muito engraçados, como também situações. O personagem "Jesus", um ator, se revela o personagem mais interessante, visto também que funciona como uma espécie de sábio para as garotas. Esperanza é a única personagem que não tem um objetivo caricato, simplesmente quer conhecer as paisagens, o que entra em questão um outro ponto forte: a visão do Equador. Bem, sendo um país um tanto quanto desconhecido - se eu tivesse a oportunidade de viajar para um país da America do Sul, certamente seria Argentina ou Chile, por exemplo - é interessante analisar algumas cidades, o povo e a cultura, sendo sincero, fiquei com vontade de conhecer o Equador depois de assistir, isso deve ser realmente importante, pois "A Que Distância" foi um dos maiores sucessos por lá, principalmente por essa propagação, a diretora através de alguns artifícios como a fotografia, consegue exaltar as estradas pelas quais as personagens passam.

- Não sei porque nunca tenho uma história com final feliz.
- Finais felizes? Depende.
- Como assim "depende"?
- Depende de onde você coloca o ponto final. Se você tivesse colocado o ponto final dessa história no dia que se apaixonou pelo cara na praia, você tinha sua história feliz. Subiam os créditos, a música, aplausos e todo mundo sairia feliz... não agora, créditos, aplausos e ai acaba a história dele. Mas a sua não, pelo contrário, a sua acaba de começar.

Bem, esse diálogo que ocorre no final do filme, uma analogia ao próprio cinema, no que diz respeito a hora de se finalizar um show, mesmo quando esse show é a sua própria infindável tentativa de viver uma história com alguém. É uma ideia simples, por acaso precisava ouvir algo assim, e esse é exatamente o espírito do filme, coisas certinhas que devem ser vistas na hora certa. Bonitos detalhes.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cavalo



Essa é a história de um homem destinado a não existir:

Mudei-me para a cidade
A escola mais famosa da cidade
Os filhos bastardos se encontravam todos lá,
E eu.
Esse momento, aos dez anos,
Se revelou como uma perfeita história de terror,
Como aquelas que me avô me contava,
Só que a protagonista, definitivamente, era eu

E foi assim que conheci ele
Menino tímido
Extremamente inteligente,
Um pouco perturbado e cheio de manias
Pouco falava e, quando o fazia, parecia que estava resmungando
Nunca olhava nos olhos e, quando tentava, desviava de uma forma abrupta
Seus olhos azuis,
Traziam uma beleza,
Aparentemente escondendo uma solidão,
Um grito.

Conhecemo-nos quando crianças
E vivemos na mesma sala por muito tempo
A sensação que eu tinha, algo próximo ao carinho
Nunca direcionei uma única palavra
Mas ele estava sob os meus olhares
Meus cuidados

Quando algum babaca sacaneava ele
Eu chorava escondida

Bem, o tempo passou
Muita coisa rolou
Mas ele continuava sempre o mesmo
Consegui, finalmente, me aproximar
Talvez tenha sido corajosa o suficiente
Para descobrir um novo universo e, assim, me apaixonar

Ninguém lembra o seu nome
Quando eu pergunto sobre ele, todo mundo ignora
Ninguém fala do pobre sujeito
Mesmo assim, eu tenho certeza que me casei com ele
Só não sei quanto tempo

Os minutos se foram
O tempo ficava cada vez mais confuso
Me meti em um caminho sem saída
Não entendia os motivos
Se era pena,
Ou identificação.

Não havia muitos diálogos
Muito menos carinho
Não ficava nervosa por isso
Tinha consciência de que era a sua limitação
Algumas pessoas se perder dentro da sua própria existência
Um homem infinito
Vazio, parecia sem alma
Mas, ainda assim, parecia um nobre cavalheiro
Transmitia um ar de misteriosidade
Não era bonito
Mas muito elegante
Seu olhar parecia procurar constantemente por algo
Como se sua realidade não fosse o suficiente
Como a distância fosse o ideal
Como se a ilusão fosse uma necessidade

Repito, eu sinto
Que tudo aconteceu
Mas os meus acontecimentos foram construídos com incertezas
Dúvidas sobre um ontem
Que passeia por entre a imaginação
Como uma sacola plástica aos ventos

Algo muito estranho aconteceu
Não sai da minha cabeça
Como um espiral
Procurando o seu final
Ele, finalmente, falou o que estava acontecendo.
Enquanto narrava os fatos, meu corpo tremia
Uma sensação que beirava a morbidez 

- Acordei no meio da noite - disse ele, quase que sussurrando. Senti uma dor nas costas, como se algo estivesse me puxando para baixo. Por um breve momento me senti sendo levado para baixo da terra. Alguma coisa me fez caminhar, uma força. Meu corpo não seguia mais as ordens do meu cérebro. Fui até o banheiro, acendi a luz e, subitamente, olhei para o espelho. Espantei-me por ver meu próprio rosto, ele estava completamente deformado. Meu nariz estava de um tamanho enorme, minha boca parece que havia derretido. Minhas orelhas ficavam cada vez mais pontudas. Mesmo com o desespero, meus olhos continuavam estatelados, como se não houvesse emoção. Sai correndo do banheiro, corri até a nossa cama, vi você dormindo, estava com algum tipo de tinta na pele, escorria por entre suas pernas, estava pintada toda de branco. Tentei gritar, mas nenhum som saia da minha boca. Além disso, a tentativa de comunicação me causou uma falta de ar, estava anestesiado com tamanho medo. Corri de volta para o banheiro, retornei a olhar a minha imagem e, para o meu espanto, não havia mas resquícios do que um dia eu fora. Meu reflexo mostrava um animal, mas precisamente, vi uma cabeça de cavalo, negro. Sim, eu tinha me tornado um cavalo. Meus olhos estatelados, agora com razão, pois me tranquilizei de uma maneira assustadora. Nem se tivesse fumado maconha teria tal sensação. Fiquei me admirando, eu nunca tinha me sentido tão completo. Um prazer tomava conta do meu corpo. Não consegui dormir naquela noite, a minha nova identidade me prejudicava, de alguma forma sentia que seria difícil me acostumar. Bem, eu sentia a mudança, porém, ninguém percebia. Minha cabeça se tornará mais pesada. Eu passava meus dedos e podia sentir minha nova forma. Enfim, amanheceu e estava na hora de trabalhar. Certamente não consegui. Peguei o ônibus, estava sentado, refletindo, de repente, olho para a janela e o reflexo mostrava exatamente o que eu sentia. Mais do que isso, uma coragem, um sentimento de proteção tomava conta de mim. Como se eu fizesse parte de algo maior, estivesse conectado com uma entidade.

- Onde eu estava esse tempo todo? - Perguntei para ele, interrompendo-o.

- Acredito que você nunca existiu para mim - respondeu ele, de uma forma tão sincera e convicta, que me excitei.

- Dias depois - Ele continuou narrando a história - comecei a sentir outras mudanças, principalmente na minha visão. Eu enxergava tudo em preto e branco. Algumas coisas ou pessoas eram brancas, a outra metade preta. Eu simpatizava pelas pretas. E odiava as brancas, como você, por exemplo. Era um desejo incontrolável, de matar todos os brancos. Me sentia cada vez mais confuso. Não demorou muito para, enfim, atribuir funções para as pessoas que eu conversava durante o dia. Eu planejava suas posições, ações, se elas me contavam algo, eu interferia, sendo agressivo nas minhas colocações. Eu era um dos líderes do universo. Sentia, inclusive, que eu teria que ser sacrificado algum dia. 
Ontem estava caminhando pela praia, quando vi uma mulher, loira, alta, elegante, com um ar de superioridade, meu corpo não mais me obedecia, algo próximo ao que aconteceu no banheiro, me vi, então, reverenciando a moça desconhecida. 

Bem, depois de ouvir a sua maluquice
Me senti sonolenta
Um tanto quanto perdida
Não conseguia entender como um homem desse estava do meu lado
Ele não era humano
Ele não era ele
Ele não podia ser real
Era um monstro sem sentimentos

Ignorei o restante da história 
Fui embora

Uma semana depois volto
Pegar as minhas coisas
Mas crescia em mim uma necessidade de dar adeus
Sou mesmo muito tola - eu pensava enquanto caminhava para casa
Me assustei, de imediato,
quando vi sangue no chão, 
Como se alguém houvesse sido arrastado
Segui o sangue, assim como Alice seguiu o coelho
O encontrei jogado no chão, muito ferido
Meu coração não aguentava mais ficar no peito
Tanto desespero
Assim que olhei no seu rosto
Percebi de imediato que a morte o rodeava
Como se confiasse em mim, mas que tudo
Ele falou:


- Você não acredita em mim?
Eu respondi:
- Sim, eu acredito em você, mais que tudo nessa vida.
Eu pude, então, confirmar, assim que olhei para a sua face
Suas últimas palavras foram:

- Eu sou uma peça de xadrez.

- Homem ferido! Homem ferido! - gritavam todos
- Não é um homem, é um cavalo - pensei.



Conto escrito por: Emerson Teixeira Lima

domingo, 11 de janeiro de 2015

Globo de Ouro 2015 - Comentários


Hoje acontece o Globo de Ouro e só para não dizer que não escrevi nada sobre... vamos lá:

Melhor filme - Drama

De melhor filme eu só assisti o "Boyhood" e "A Prova de Tudo", certamente fico com o primeiro. Um dos melhores filmes do ano, não só pela sua produção, como também pelos temas abordados, muito maduro, parece que segue a linha deixada no último filme da trilogia do antes. Aquela alma, não sei. Essa proposta me encantou, as mudanças da mãe, além do próprio protagonista e o pai, foram muito impactantes para mim. Merece o prêmio!

Melhor Filme - Comédia ou Musical

Só assisti o "O grande hotel Budapeste" e, por todo o meu amor pelo Wes Anderson, vou torcer por ele. 

Melhor atriz – Drama

Felicity Jones foi uma surpresa agradável para mim, além de linda tem sim muito talento, sem dúvida esse papel servirá para crescer na carreira e, quem sabe, futuramente ganhe um Oscar, ela realmente tem estilo de pessoa que ganha o Oscar, estou certo? 
Julianne Moore está divina em "Para Sempre Alice", aliás, eu acho que a sua atuação faz o filme ser bom. Poxa, eu amo essa mulher, se ela ganhar eu vou ficar feliz da vida! Poréééém!!!!!!!!!!
Rosamund Pike ( quem era essa mulher gente? ) fez um excelente trabalho, realmente me surpreendi com ela, uma das personagens mais interessantes do ano e, claro, sem a capacidade dela isso não seria possível.

Melhor ator – Drama

Se o querido Steve Carell ganhar eu saio correndo pelado na rua. Estou muito ansioso para assistir esse filme e iria ficar muito feliz se esse cara ganhasse, eu o amo. Já me emocionou e me alegrou muito, tudo que faz eu estou assistindo emocionado por revê-lo.
Jake Gyllenhaal teve o seu ano! 2014 pode ser chamado também de Jake Gyllenhaal. Porém ainda não. Calma jovem. Mas certamente ganhará o Oscar em breve, ele também tem cara de Oscar. Engraçado que eu nunca gostei dele, mesmo amando o Donnie Darko, esse rapaz nunca me agradou.
E o premiado da noite - e também um outro favorito meu - Eddie Redmayne! Sim, eu não citaria esse cara se realmente não estivesse surpreendido pelo seu trabalho, mas o que ele fez com o famoso físico lá é brilhante. Me fez me interessar por um cara que, sinceramente, não me interesso. 

Melhor atriz – Comédia ou musical

Torço pela Amy Adams. Porém não vi nada, então não vou nem tecer comentários. Apenas que eu adoro essa mulher e ela merece tudo. Merecia em "The Master" e eu fiquei puto por ela não ter ganho nada.

Melhor ator – Comédia ou musical

Para mim a melhor categoria. Sem dúvida nenhuma fico com Joaquin Phoenix. Esse é outro que eu amo. Desde aquele documentário que ele fez, doidão, cantor de rap, que coisa gente. Esse cara brinca com a insanidade de uma forma inimaginável. Paul Thomas Anderson, maior realizador atual, talvez de todos os tempos, analisou o potencial desse cara, acredito, em "I'm Still Here" e pensou "caralho, esse é foda". E, sim, ele é foda, visceral, louco e são. Ator de outro nível. Sabe Sean Penn, Marlon Brando? Aquela atuação natural, que parece ser fácil? Então, esse cara conquistou exatamente isso. O único problema é que ele não tem cara - e não me parece querer ter - de ganhador de prêmios nessa indústria FDP. Então não vai ganhar essa merda. Aliás, cadê "Vício Inerente"?

Melhor ator coadjuvante 

Torço pelo Ethan Hawke mas qualquer um ficarei em paz.

Melhor atriz coadjuvante

Emma Stone não me engana. Não engulo essa menina. Meryl Streep precisa estar presente até morrer, fez pacto com o diabo e, dizem as más linguas, que se você ouvir o Mamma Mia de trás pra frente escuta coisas macabras. Keira Knightley, eca. Jessica Chastain, gosto. Porém hoje não baby. Sim! O prêmio vai para Patricia Arquette! Arrasou!

Melhor diretor

David Fincher merece muito. E é o que vai ganhar. Alejandro González Iñárritu merece também. Richard Linklater merece e, se por acaso ganhar, ficarei feliz. Poréééééeéééém!!!! Meu voto vai para Wes Anderson! Viva o cinema independente! Esse cara é mestre! 

Melhor roteiro

Wes Anderson ganha.

Melhor animação

Dos legos.

Melhor filme estrangeiro

Ai sim em? Ai sim!!!! "Ida", filme polonês, M.A.R.A.V.I.L.H.O!

Melhor trilha original

Trent Reznor & Atticus Ross com  "Garota exemplar"

Melhor canção original

"Big Eyes" – "Big Eyes" (Lana Del Ray)

E séries eu não assisto, poréééééém, assisti True Detective e ganha tudo e será super hiper mega merecido porque é demais. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

36, 2012


O diretor Nawapol Thamrongrattanarit, cujo nome me parece quase impronunciável, começa em grande estilo no universo cinematográfico. O cinema tailandês, eventualmente, nos presenteia com obras incríveis, como por exemplo o "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", e esse "36" é um outro bom exemplo.

Como vocês viram na minha introdução ( se você não leu clique aqui ) eu tenho um contato muito grande com a fotografia, desde pequeno, Uma relação de amor e curiosidade, uma feliz nostalgia que eu tenho, meus tempos de revelar as fotos e segurar em minhas mãos aqueles momentos. (in)Felizmente não temos mais a preocupação em comprar filmes e revelar depois, e cabe aqui essa dicotomia pois, realmente, a tecnologia que nos salva, é a mesma que nos priva de sensações boas. Há muito tempo eu não tocava nas minhas fotografias, recentemente revelei um ensaio que fiz e, nossa, foi como se eu voltasse no tempo. Aquela maravilhosa sensação de acariciar minha obra. Pode soar estranho, mas faz muito sentido para mim. O filme intercala muito bem essa reflexão, na busca incansável da protagonista pelo seu amigo-amor, companheiro de registros de pequenos momentos, que serão, a partir da captura, eternos.

Ela guarda suas fotos em um HD, um HD por ano, e isso a confunde diversas vezes, a priva da sensação citada a cima, cria-se uma confusão, pois mesmo com sua ansiedade por registro, ela soa muito perdida quando entra em questão "a procura pelas fotos". Um computador, entre a pessoa, sensibilidade e a arte, reduz a emoção da imortalidade, que a fotografia traz.

O filme começa com ela registrando um edifício abandonado, ela os procura para rodar filmes, encontra então o seu companheiro, um diretor de arte, onde durante metade do filme eles passaram lado a lado, registrando os lugares e momentos que passam, ou pessoas que encontram. Em uma das primeiras conversas, ela diz que trocou o analógico pelo digital, resultado do tempo. As coisas evoluem, e a praticidade fala mais alto. Não é errado, no mesmo tempo que se revela infantil a ideia de que, guardado as importantes fotos no computador, elas estarão a salvo.

O filme é dividido em capítulos, que mais parecem descrições de alguns detalhes que acontecerão ao longo, por exemplo: "tire uma foto para podermos ver novamente", "a capa do livro que ela lê é uma casa sem porta",  "o lugar tem um passado", "um pássaro vermelho-violeta voava no céu" e "não gosto de ser fotografado". Esses três últimos, por sinal, são os mais interessantes e cruciais para o simbolismo do filme, ele olha um pássaro e mostra para a protagonista ela então tira foto dele, e desencadeia um diálogo interessante, onde ele questiona o porquê dela não olhar com os olhos ao invés da câmera, ela responde que, se não tivesse tirado a foto, o momento se perderia para sempre. Ela é vítima de uma obsessão quase.

O final do filme é digno de emoções, pois a menina está tentando recuperar os arquivos perdidos ao lado do técnico de informática, enquanto relembra alguns momentos que passou com o seu amor, o diretor de arte, visto que tinha passado anos e eles nunca mais se viram, ela o descreve com muita propriedade, através das fotos, diz que ele gostava de fotografar desconhecidos na rua e raramente lhes entregavam ou mostrava as fotos que tirava - algo que me identifiquei profundamente - que demonstra, talvez, a sua arte como fruto solitário, particular. A menina tirou uma foto com o rapaz, porém nós, espectadores, não vemos esse momento, a filmagem continua na câmera em cima do muro, pronta para captar os dois, como se o equipamento fosse o real protagonista dessa história de amizade/amor. Simbolizando que esse momento deles, não poderá ser compartilhado com a gente, pois é particular deles. Uma metalinguagem incrível.

Uma reflexão sobre fotografia e cinema


É difícil escrever sobre algo que nos toca, sem tentar explicar um pouquinho do porquê de tamanha identificação. Ainda mais eu que, para quem acompanha os meus textos, sabe que eu jamais deixo de lado a emoção como elemento fundamental para a composição das minhas resenhas. Olhando para trás, e graças ao filme tive o prazer de buscar essa reflexão, eu sempre estive ligado com a arte da fotografia. Achava magnífico aquela magia de transformar momentos rápidos em momentos imortais. Por mais simples que fossemos, visto que não gastávamos muito dinheiro com filme fotográfico, a compra de um, eventualmente, nos rendia muita diversão. Era um evento tirar fotos e ainda ter muita curiosidade sobre tudo que cerca a revelação das mesmas. Se tinha algum evento, festa ou algo assim, compraríamos, na certa, os pequenos rolinhos de filme, para registrar com a boa e velha câmera analógica. 

Hoje me entendo como um entusiasta da arte, procuro formas, a cada dia, de expressar o meu ponto de vista sobre o mundo. Criando, entre aspas, um mundo só meu, que de “só” não tem nada, pois percebo a cada dia que mais e mais pessoas compartilham da mesma visão. Uma das aulas que eu dei, sobre fotografia, se estruturava na comparação de uma fotografia com poema, eu levei um dos meus poemas para os alunos ( Bem longe ) e, através dela, fui criando fotos a cada verso. Prevendo algum tipo de criação artística que partisse da frase, e não ao contrário. Se vemos uma imagem, podemos criar uma frase em torno dela. Porém se lemos uma frase, como pensar em fotografar a mesma? Enfim, fotografia é, para mim, um lar sagrado. Que pouco me importa o profissionalismo, tenho feito alguns trabalhos, incluindo um ensaio com uma bailarina ( vocês encontram esse trabalho-amador no meu Flickr ) mas jamais me tornaria um dependente de técnicas, mesmo que elas sejam o essencial para uma fotografia elegante. Não estou falando aqui de conhecimentos básicos, é óbvio que é necessário, mas a partir deles aprender sozinho, conquistar a tua habilidade em transformas poemas em imagens. Se tornando um Deus, moldando histórias e criando um mundo particular, onde a lembrança se sobressai.

Então, para mim, fotografia e cinema não se estuda. Se sente. É visceral e, quanto mais real, melhor. Infelizmente vivemos em um mundo onde o amor e a entrega rende muito pouco dinheiro, e dinheiro nos move, mas essas duas entidades para mim são intocáveis. Elas me salvaram, no mesmo tempo que me sufocara. Pois queria seguir ambos os caminhos profissionalmente, mas me via perdido dentro da minha passionalidade, em criar sentimentos, não criar dinheiro. Como raios poderia viver assim? Transitando por entre caminhos de sonhos, enquanto a realidade me cobrava sobreviver? Enfim, o caminho que encontrei foi criar extensões, o cinema e fotografia hoje se tornaram a alma do meu trabalho, e serão por muito tempo. Bem, parte daí o meu carinho com o registro da realidade. Por isso me identifico tanto com o cinema independente, não é para propagar aos ventos que eu assisto algo para ser diferente, mas simplesmente por me identificar com a arte crua, como o cinema Iraniano, por exemplo. Na verdade isso reflete em tudo que faço como os meus textos e o próprio podcast “Cronologia do Acaso”. Eu sou um amante de música, mas optei por retirá-la do podcast, pois só me importa a realidade, e a única realidade que eu vejo é a nossa conversa sobre determinado tema ou obra. A edição é um truque, adoro uns truques, quando bem feito, mas também aprecio o choque do real.

Obs: Esse texto é uma introdução para a resenha sobre o filme tailandês 36, de 2012 ( Clique Aqui )
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